Ele nasceu! Na sala de espera, ao ouvirem a notícia, todos deste mundo que ali aguardavam sua chegada sorriram, abraçaram-se e comemoraram. Uns davam parabéns aos outros e celebravam, com extrema alegria, a chegada de mais um a terra dos homens.
Mas ele chorava, gritava, como se pudesse dizer o incômodo que era nascer. Não dizia nada e ainda quando se calou de seu grito, podia-se notar uma lágrima pequena e sincera lhe percorrendo a face, como que a denunciar, silenciosamente, uma agressão suprema: começar a viver. Ninguém se deu conta disso.
Ele cresceu, esqueceu-se do desgosto de nascer, mas não fora poupado da dor de viver. Ninguém é.
Tentou ser feliz, e foi, quando pôde. Formou-se, casou-se, teve filhos, depois netos, reconhecimento no trabalho, leu muitas centenas de livros, rascunhou outros, conquistou menos de uma dezena de amigos, amou, se interessou, se desinteressou, viajou, voltou, conheceu milhares de coisas e passou a buscar apenas uma: Ele ( e talvez, Deus.). Não se pode precisar se encontrou.
Na verdade, a única certeza que ele tinha é que a vida sempre doía de vez em quando. Latejava sempre. A vida não bastava a si mesma, era um corte latente em sua existência, uma marca em sua mão milenar, uma viagem pelo túnel escuro.
Era isso, agora ele entendia a dor de nascer abruptamente. Um corte, uma mão dura a lhe puxar pra fora. Ele não queria, agora lembrava-se, mas a violenta mão o trouxe para fora de si, o fez percorrer a galope o túnel escuro. Luz que cega, frio, formas e cores indefinidas e indefiníveis para sempre. Um outro túnel a percorrer.
Era a dor daquele dia que se repetia sempre. Era dor de viver! Agora, tão próximo de desviver, ele sabia. Ele lembrava do que já sabia. E pensava em túneis, em que outras viagens ainda havia para fazer. Talvez – desconfiou - apenas a viagem de volta. Volta ao lugar que era seu de verdade, do qual não queria, embora precisasse, ter saído.
De repente, tudo se tornou muito claro e aquele ancião, ou bebê, sentiu-se vagarosa e indelevelmente puxado pela mão, mas, dessa vez, para dentro. Ele sorriu e, ao fechar os olhos, não se sabe mais o que viu.
Ele morreu. Na sala de espera, ao ouvirem a notícia, todos desse mundo que ali aguardavam, choraram e, abraçando-se, uns deram os pêsames a outros, lamentando mais uma partida da terra dos homens.
Mas ele sorria: transviver era bom! Ninguém se deu conta disso.
B.Helena.

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ResponderExcluirTem q juntar td e fazert um livro de contos...
ResponderExcluiressa foi alá José de Alencar.. pq ao menos pra mim, ele merece a homenagem...