quarta-feira, 30 de março de 2011

Viver e Transviver.

Ele nasceu! Na sala de espera, ao ouvirem a notícia, todos deste mundo que ali aguardavam sua chegada sorriram, abraçaram-se e comemoraram. Uns davam parabéns aos outros e celebravam, com extrema alegria, a chegada de mais um a terra dos homens.
Mas ele chorava, gritava, como se pudesse dizer o incômodo que era nascer. Não dizia nada e ainda quando se calou de seu grito, podia-se notar uma lágrima pequena e sincera lhe percorrendo a face, como que a denunciar, silenciosamente, uma agressão suprema: começar a viver. Ninguém se deu conta disso.
Ele cresceu, esqueceu-se do desgosto de nascer, mas não fora poupado da dor de viver. Ninguém é.
 Tentou ser feliz, e foi, quando pôde. Formou-se, casou-se, teve filhos, depois netos, reconhecimento no trabalho, leu muitas centenas de livros, rascunhou outros, conquistou menos de uma dezena de amigos, amou, se interessou, se desinteressou, viajou, voltou, conheceu milhares de coisas e passou a buscar apenas uma: Ele ( e talvez, Deus.). Não se pode precisar se encontrou.
Na verdade, a única certeza que ele tinha é que a vida sempre doía de vez em quando. Latejava sempre. A vida não bastava a si mesma, era um corte latente em sua existência, uma marca em sua mão milenar, uma viagem pelo túnel escuro.
Era isso, agora ele entendia a dor de nascer abruptamente. Um corte, uma mão dura a lhe puxar pra fora. Ele não queria, agora lembrava-se, mas a violenta mão o trouxe para fora de si, o fez percorrer a galope o túnel escuro. Luz que cega, frio, formas e cores indefinidas e indefiníveis para sempre. Um outro túnel a percorrer.
Era a dor daquele dia que se repetia sempre. Era dor de viver! Agora, tão próximo de desviver, ele sabia. Ele lembrava do que já sabia. E pensava em túneis, em que outras viagens ainda havia para fazer. Talvez – desconfiou - apenas a viagem de volta. Volta ao lugar que era seu de verdade, do qual não queria, embora precisasse, ter saído.
De repente, tudo se tornou muito claro e aquele ancião, ou bebê, sentiu-se vagarosa e indelevelmente puxado pela mão, mas, dessa vez, para dentro. Ele sorriu e, ao fechar os olhos, não se sabe mais o que viu.
Ele morreu. Na sala de espera, ao ouvirem a notícia, todos desse mundo que ali aguardavam, choraram e, abraçando-se, uns deram os pêsames a outros, lamentando mais uma partida da terra dos homens.
Mas ele sorria: transviver era bom! Ninguém se deu conta disso.

B.Helena.

domingo, 27 de março de 2011

Poesia retirada do fundo do baú!

Poesia de mim

9/4/2006 21:06:36
“Já andei por tantas terras
Já venci mil guerras
Já levei porradas dominei meu medo
Já cavei trincheiras no meu coração
Descobri nos pesadelos sonhos mutilados
E acordei no meio de anjos cansados
De serem usados pela solidão
Ah! Meu coração é um campo minado
Muito cuidado ele pode explodir
E se depois de tão dilacerado
For desarmado por quem há de vir
Alguém que queira compensar a dor
Plantar o sonho e ver nascer a flor
Alguém que queira então me residir
E explodir meu coração de amor”

Me lembrando de um Hoje que pertence ao Ontem.

Hoje

29/3/2006 23:03:10
Hoje fazia um azul tão intenso que me senti imensamente perdoada pelos erros que nem sei se cometi. Senti Saudades de Quintana e me lembrei que não o conheço...Será?
"ELES PASSARÃO, EU PASSARINHO"

quinta-feira, 24 de março de 2011

História sobre a Sombra, para Jolie.


Ao me deliciar lendo os contos de Eduardo Galeano, me deparo com um que me fez lembrar Jolie! Jolie e as sombras. Jolie desde pequena as persegue, as contempla, brinca com elas. Não são as sombras que perseguem Jolie. Jolie é que persegue as sombras.
Não são poucas as tarde em que se pode contemplar Jolie correndo atrás da sombra de alguma borboleta ou avião! A borboleta, os passarinhos matinais, o avião, não têm a menor graça, mas sua sombra!!! Ah, elas povoam e colorem o mundo de Jolie.
Às vezes, é pura contemplação e só. Jolie não a chuta, nem corre atrás, nem tenta pisar ou golpear a pobre senhora, ou menina, Sombra! Jolie apenas a admira por horas a fio. Fica ali, sentada, no seu canto tradicional, com olhos vibrantes, corpo inquieto, emitindo um ou outro ruído de pura emoção. Espasmo de quem assiste de camarote a uma grande apresentação!
A Sombra das travessuras, torna-se, de repente, a Sombra artista, de mil formas e cores, uma trapezista, bailarina ou contorcionista só para ser apreciada por Jolie, fiel companheira de todos os dias de sol! E que nunca chova, porque ao meio-dia se come, à noite se dorme e as nuvens passam rápido. Mas a chuva é o grande algoz de Jolie, e da sombra.
Como não há como fugir de um ou outro algoz, Jolie e a Sombra, acostumaram-se aos dias de chuva e até os aproveitam para descansar um pouquinho! Passada a chuva, uma volta para outra, como duas velhas e inseparáveis amigas de infância, que nunca se reconhecem!
Jolie só não se acostuma com a Sombra, que é sempre sua melhor e mais deliciosa novidade. Mas Jolie é um cachorro, e acostumar-se ao mágico é coisa de gente, sobretudo gente que cresce.
Para Jolie, a História da sombra, por Eduardo Galeano ( As Palavras Andantes):
“O primeiro sabor do qual se recorda foi uma cenoura.
O primeiro cheiro, um limão partido no meio.
Recorda que chorou quando descobriu a distância. E recorda que certa manhã ocorreu o descobrimento da sombra.
Naquela manhã, ele viu o que até então havia olhado sem ver: grudada aos seus pés jazia a sombra, mais longa que seu corpo. Caminhou, correu. Onde ele ia, fosse onde fosse, a perseguidora sombra ia com ele.
Quis arrancá-la. Quis pisá-la, chutá-la, golpeá-la; mas a sombra, mais rápida que seus braços e pernas, se esquiva sempre. Quis soltar sobre ela; mas ela adiantou-se. Virando-se bruscamente, tirou-a da frente; mas ela ressurgiu atrás. Grudou-se contra o tronco de uma árvore, encolheu-se contra a parede, meteu-se atrás da porta. Onde ele se perdia, a sombra o encontrava.
Finalmente, conseguiu soltar-se dela. Deu um salto, jogou-se na rede e separou-se da sombra.
Ela ficou embaixo da rede, esperando por ele.
Depois ficou sabendo que as nuvens, a noite e o meio-dia suprimem a sombra. E soube que a sombra sempre volta, trazida pelo sol, como um anel que procura um dedo ou um abrigo viajando rumo ao corpo.
E se acostumou.
Quando ele cresceu, com ele cresceu a sombra. E ele teve medo de ficar sem ela.
E o tempo passou. E agora, quando ele está se encolhendo, após os dias de sua vida, tem pena de morrer e deixá-la sem ele.”

B. Helena.

segunda-feira, 21 de março de 2011

O silêncio solitário dessa tarde encontrou companhia na voz impávida do vento, que, aos gritos, forçou entrada! Entrou fazendo baralho e, enchendo cada canto, deixou tudo ainda mais vazio.

O vento desses dias tem me causado um certo medo de estar viva. Não é um arrepio que corta. É um barulho assombrador do tempo ruindo. Esse assovio morbido me dá uma dimensão desesperada da vida que, qual folha de papel, vacila no redemoinho.


B. Helena.


Explicações.

Qual a explicação para este blog? A mesma explicação da vida: nenhuma. Viver não é lá uma palavra a ser traduzida em sinônimos e explicações. É sentido. É risco. Escrever sem rascunho. Este blog é puro sentido e não tem sentido algum...Talvez apenas represente o vão papel de rascunho de vivências,se bem que vivência não se ensaia.


Semeado por Bruno, me incumbi, por alguma necessidade inexplicável, de fazer crescer esse embrião. Gerar ideias e fazê-las nascer é um parto doloroso, mas minha natureza de mulher me faz querer correr este risco.  No meio da espera, ficar grávida de boas intenções me salva de mim mesma. Parir um blog há de me libertar, tal como um filho liberta sua mãe!


Grávida do mundo, de ideias, sentimentos e uma nova função, sangrarei até a última gota e, nesta gestação de mim mesma, dou a luz a teias de palavras recém saídas da escuridão.


B.Helena.